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Augusto Abelaira
 
 

 

Augusto Abelaira:

 

ABELAIRA, Augusto (18/3/1926, Ançã, Cantanhede). Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas. Foi professor e jornalista, director de programas na RTP e director das revistas Seara Nova e Vida Mundial. Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências pelo romance As Boas Intenções (1963) e Prémio Cidade de Lisboa pelo romance Sem Tecto entre Ruínas (1979).

Revela-se em 1959 com o romance A Cidade das Flores, no qual, a nível de elaboração alegórica da linguagem romanesca, traça, entre Florença e Lisboa, com extrema ironia, o perfil de uma geração de jovens portugueses politicamente diletante e já céptica no imediato pós-guerra. Essa estrutura romanesca alegórica, frequentemente baseada num diálogo ágil, desenvolve-se a partir da própria consciência dramática da história (sentido do efémero no amor como na história) e, por outro lado, da ambiguidade da escrita, sempre «verdadeira» sendo sempre «falsa».

É o que acontece nos romances seguintes, sobretudo desde As Boas Intenções, retomando a história portuguesa da revolução republicana, e mais propriamente a da pequena burguesia citadina. Nesse romance paradigmático, desde a actriz-intelectual (Maria Brenda) ao jornalista-revolucionário (Vasco) e ao poeta-aristocrata (Bernardo), todas as personagens são envolvidas por uma retórica que as conduz inevitavelmente à maior frustração, quer individual quer colectiva, frustração que se repercute nas gerações seguintes, durante a ditadura de Salazar.

Em Enseada Amena (1966), as personagens confundem-se com a própria mitologia da fundação da cidade de Lisboa, perdendo-se a palavra num caprichoso movimento cénico, diluindo-se a ideia e o sentimento numa história constantemente feita e logo desfeita.

Nos romances posteriores, em que predomina ainda a mitologia de Lisboa, situando-se a acção antes e depois do 25 de Abril de 1974, exprime-se sobretudo a frustração duma geração que a cada passo se interroga e autocrítica, num quotidiano fragmentário. A linguagem irónica de Abelaira monta e desmonta, principalmente através do diálogo, as «probabilidades do acontecer» a que se reduz o ser, atitude sugerida pelo próprio título de uma obra publicado mais recentemente, Deste Modo ou Daquele (1990), um romance que joga em diferentes planos da narrativa, entre o diário e a ficção.

Nesse montar e desmontar, implicando a oscilação entre o ético e o estético, está o sentido do arbitrário e do inacabado que é para Abelaira toda a criação romanesca, numa infindavelmente renovada interrogação, conceito que exprime bem em algumas reflexões sobre a sua própria obra, como, por exemplo, no prefácio, datado de 1967, à reedição de Os Desertores:
«Corno o escultor de Aristóteles, inicias o teu trabalho atacando um bloco de mármore, à procura da estátua que está lá dentro. E essa estátua é (pois que havia de ser?) não tanto uma história vivida por meia dúzia de personagens, como um sentido: qual o valor, se o tem, da vida humana)? Mas a estátua que à partida, e através da prática da escrita, julgavas ir encontrar, encontraste-a alguma vez quando terminaste os teus romances?»(4.ª ed., 1978, pp. 11 - 12).
 

 
Fotografia de Augusto Abelaira
 


Obras principais:
Ficção: A Cidade das Flores, romance, Lisboa, 1959; Os Desertores, romance, Lisboa, 1960; As Boas Intenções, romance, Lisboa, 1963; Enseada Amena, romance, Lisboa, 1966; Bolor, romance, Lisboa, 1968; Quatro Paredes Nuas, contos, Lisboa, 1972; Sem Tecto entre Ruínas, romance, Lisboa, 1979; O Triunfo da Morte, romance, Lisboa, 1981; O Bosque Harmonioso, romance, Lisboa, 1982, O Único Animal Que.... romance, Lisboa, 1985; Deste Modo ou Daquele, romance, Lisboa, 1990; Outrora Agora, romance, Lisboa, 1996.