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Filho do filósofo
António Augusto Cortesão, Jaime Cortesão nasceu
em Ançã, concelho de Cantanhede, a 29 de Abril de
1884. Em Coimbra estudou Grego e Direito e, mais
tarde, no Porto e em Lisboa, Medicina, formando-se
em 1909. Como tese de formatura publicou "Arte e
Medicina" e um livro de Poesia: "A Morte da Águia".
Anos depois, publicou um belo volume de líricas,
sob o título de "Glória Humilde". Professor, de
1911 a 1915, deputado, de 1915 a 1917, serviu como
voluntário na 1.ª Guerra Europeia, na campanha de
Flandres, em 1918, na qualidade de capitão-médico-miliciano,
tendo sido gravemente ferido em combate e condecorado
com a Cruz de Guerra. Sobre a guerra escreveu um
livro, hoje raro: "Memórias da Grande Guerra". Director
da Biblioteca Nacional de Lisboa, de 1919 a 1927,
fez parte da missão literária que foi ao Brasil,
em 1922, acompanhando o presidente António José
de Almeida. Data dessa época, ao colaborar na "História
da Colonização Portuguesa do Brasil", o seu renome
de historiador, especialmente da parte relativa
aos descobrimentos portugueses. Mas, ao lado dessa
glória de historiador erudito, ressalta mais a sua
vida de democrata austero e fiel praticante das
virtudes antigas. Exilando-se no estrangeiro, desde
1927, por não compactuar com a ordem imposta pela
ditadura salazarista, Jaime Cortesão viveu sucessivamente
na Espanha, França, Bélgica e Inglaterra. De 1940
em diante coube ao Brasil recebê-lo, “não como hóspede
ilustre, mas como fraterno trabalhador”. Voltando
depois a Portugal, teve o historiador de pagar com
inúmeros dissabores e prisão o seu fervor e dedicação
à causa da liberdade.
Um mês antes do
seu falecimento a 12 de Julho de 1960, no editorial
do «Primeiro de Janeiro», Jaime Cortesão não esquece
o seu berço natal, Ançã:
“De súbito e, ao penetrar no dédalo das suas
calçadas e congostas, avassalou-me a impressão,
quase miraculosa, de me encontrar num cenário onde
se houvesse multiplicado e engrandecido até à essência
ideal o ambiente mais familiar e típico da minha
terra natal. Aqueles solares e palácios setecentistas,
juntamente tão acolhedores e aparatosos, da antiga
vila de Ançã, onde nasci, ressurgiram ali, ora modestos,
ora em plena majestade, nas fileiras paralelas das
ruas, no desabafo das praças, ou alcandorados pelo
viso dos morros, como aparição de espectros queridos,
que da outra vida se reerguessem, acompanhados agora
duma prole infinita, mas com o seu ar de família,
inconfundível”.
E, no dia l4 de Agosto de 1960,
morria o notável historiador. A imprensa, quer lusitana,
quer brasileira, ficou de luto: «Prestamos, neste
primeiro número de “O Marialva”, homenagem muito
sentida à memória do Dr. Jaime Cortesão, recentemente
falecido. Alto espírito de poeta, de historiador,
dramaturgo; alcandorado carácter que foi, no conceito
da redacção do “Estado de S. Paulo um dos maiores
portugueses” ; e, em nossa opinião, não só isso,
mas o mais ilustre e elevado carácter, entre os
nossos conterrâneos de todos os tempos. Jaime Cortesão,
como homem de letras, como lídimo patriota e como
carácter de elevada pureza, merece o preito da nossa
gratidão e saudades eternas (...).
Com grande acompanhamento,
os restos mortais de Jaime Cortesão foram inumados
no Cemitério dos Prazeres. O féretro, coberto com
as bandeiras portuguesa e brasileira, esta última
cedida pelo embaixador do Brasil (o falecido era
cidadão benemérito de São Paulo), saiu da sede da
Sociedade Portuguesa de Escritores, da qual Jaime
Cortesão era presidente. No cemitério foi depositado
provisoriamente em jazigo, para mais tarde baixar
à sepultura conforme foi sempre o desejo de Jaime
Cortesão, como desejo seu foi o de ser amortalhado
no burel dos franciscanos com que foi enterrado,
sendo, porém, o enterro não religioso, mas civil,
pois era um espírito laico de convicção.
In «Sabores de terra e mar»
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