Integrada na edição do projeto “Gente da Nossa Terra” dedicada a Maria Amélia de Magalhães Carneiro, será realizada uma roda de conversa intitulada “Ser Artista, Ser Mulher”, promovida pelo projeto “Feminismo para Tod*s”. Tendo em conta que Maria Amélia Magalhães Carneiro, enquanto artista plástica, fez carreira profissional nesta área, destaca-se o facto de o ter conseguido num tempo em que o acesso das mulheres à criação artística era ainda bastante limitado.
A partir da relação entre arte, vida e feminismo, este será um encontro aberto à comunidade para reflexão conjunta e partilha coletiva sobre visibilidade, reconhecimento e memória das mulheres nas artes, bem como sobre o lugar das mulheres no mundo da arte, os caminhos que foram sendo abertos ao longo dos séculos e os obstáculos que continuam a marcar esse percurso nos dias de hoje. Como convidadas estão presentes Dina Lopes e Maria Manuel Carneiro.
Dina Lopes é uma artista plástica, licenciada em Pintura pela ARCA – EUAC e o seu percurso artístico caracteriza-se por uma investigação contínua sobre a memória, o tempo e a identidade, cruzando pintura, cerâmica, ilustração, música e intervenção artística no espaço público, desenvolvendo, desde 2000, uma técnica própria baseada na sobreposição de imagens e transparências, criando composições que convidam a viajar no tempo e no espaço, numa relação entre passado, presente e futuro.
Ao longo da sua carreira realizou diversas exposições individuais (entre as quais uma com cerca de 40 obras na Casa da Cultura de Cantanhede) e coletivas, em Portugal e no estrangeiro. Criou também a obra “Nocturno”, que serviu de capa ao romance Nocturno de António Canteiro, inspirado na vida e obra do compositor António Fragoso. No processo criativo desta obra, Dina Lopes representou fotograficamente Maria Amélia Magalhães Carneiro, estabelecendo uma ponte simbólica entre gerações de mulheres artistas.
Maria Manuel Magalhães Carneiro é licenciada em Filologia Germânica pel Universidade de Coimbra e, no âmbito da investigação genealógica a que se tem dedicado, coordenou diversas iniciativas de divulgação da vida e obra da pintora naturalista Maria Amélia Magalhães Carneiro, sua tia-avó.
O projeto “Feminismo para Tod*s” surgiu em 2022, em Cantanhede, como um movimento social liderado por quatro amigas com o objetivo de promover o debate informal e informado sobre questões de cidadania, feminismo, igualdade de género e defesa dos direitos humanos, temas essenciais para uma sociedade mais equilibrada, justa, livre e inclusiva, através da realização mensalmente de "Rodas de Conversa" de entrada livre, em diferentes locais do concelho de Cantanhede e, por vezes, fora deste.
Esta será mais uma iniciativa incluída na programação da quarta edição do projeto cultural “Gente da Nossa Terra” dedicada a Maria Amélia Magalhães Carneiro que contempla múltiplos eventos pluri-disciplinares, realizados, em fevereiro e março deste ano, em vários pontos do concelho de Cantanhede e fora deste, com o propósito de proporcionar ao público de diversas gerações e contextos o apreciar dos saberes e das diferentes perspetivas sobre o legado desta figura histórica-artística, reforçando a sua atualidade e promovendo o seu reconhecimento local, regional, nacional e internacional.
Para o efeito, o Município de Cantanhede tem como parceiros diversas entidades e agentes culturais da região, para além das juntas de freguesia, serviços do município e outras autarquias, com abordagens nas áreas de cultura, património, educação, turismo, etnografia, associativismo, música, ação social, novas tecnologias, recursos naturais, desporto, entre outras, procurando abranger várias gerações da comunidade.
Recorde-se que Maria Amélia de Magalhães Carneiro (1883-1970) se destacou como artista plástica, pintora da aldeia portuguesa, tendo encontrado no mundo rural os temas que mais a fascinaram – as gentes, os interiores, as paisagens, a faina agrícola. No concelho de Cantanhede, onde residiu durante de 1913 a 1941, retratou, com pintura ao ar livre, especialmente as aldeias gandaresas, focando-se nos rostos, trajes típicos, interiores das casas rústicas e seus pátios, paisagens, caminhos, campos, eiras e faina agrícola. Vários locais de Pocariça, Cadima e Varziela inspiraram uma parte substancial das suas telas, pintadas a óleo ou desenhadas carvão e sanguínea. Dedicou-se também ao ensino artístico, organizando cursos de desenho e pintura na Pocariça, Cantanhede e Coimbra, ensinando cerca de 70 alunos, entre os quais o escritor Carlos de Oliveira e as pintoras Maria Augusta Almeida Galvão e Maria da Conceição Duarte Reis. A sua casa-ateliê foi, de facto, a primeira escola de arte do concelho de Cantanhede. Formada na estética naturalista, no atelier-curso de Júlio Costa e na Academia Portuense de Belas Artes, no Porto, tendo sido uma das primeiras mulheres a frequentar esta instituição, participou com destaque, entre 1910 e 1960, em várias exposições individuais e coletivas em vários pontos do país. O seu legado artístico e pedagógico é particularmente relevante para o concelho Cantanhede, onde foi homenageada com uma exposição em 2003 e com a atribuição do seu nome a uma rua da cidade no ano seguinte.