Após as edições dedicadas a Carlos Garcia, Jaime Zuzarte Cortesão, António Taboeira e Maria Amélia de Magalhães Carneiro, o Município de Cantanhede homenageia Augusto Abelaira na 5.ª edição do projeto “Gente da Nossa Terra”, que decorrerá durante os meses de outubro e novembro de 2026, em vários pontos do concelho.
O projeto visa promover o reconhecimento local, regional, nacional e internacional de personalidades marcantes da história do concelho, valorizando os seus percursos, carreiras, influências e legados, através de abordagens multidisciplinares que procuram inspirar diferentes gerações e comunidades.
A programação integra dezenas de iniciativas, incluindo conferências, concertos, teatro, exposições, performances, caminhadas pela biodiversidade, cinema ficcional e documental, viagens culturais, audições conjuntas de programas de rádio, visitas guiadas, conversas, oficinas, apresentações de livros, pintura, contos infantis, sessões pedagógicas nas escolas e aulas teórico-práticas destinadas à população sénior.
À semelhança das edições anteriores, o Município contará com a colaboração de juntas de freguesia, outras autarquias, serviços municipais, entidades e agentes culturais da região, envolvendo áreas como cultura, património, educação, turismo, etnografia, associativismo, música, teatro, novas tecnologias, recursos naturais e desporto.
Augusto Abelaira (1929-2003), natural da vila de Ançã, destacou-se como escritor, romancista, dramaturgo, professor, tradutor e jornalista. Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, participou ativamente nos movimentos estudantis de oposição ao Estado Novo.
A sua obra, influenciada pela estética neorrealista e integrada no modernismo tardio, combina dimensões histórico-materialistas e psicológicas, recorrendo frequentemente à ironia e à crítica política e social.
Estreou-se como romancista em 1959, com A Cidade das Flores, obra que retrata as inquietações da juventude perante o regime de Salazar, situando a ação em Itália para evitar a perseguição da PIDE.
Entre as suas obras premiadas destacam-se As Boas Intenções (1963), distinguida com o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa; Sem Tecto Entre Ruínas (1979), galardoada com o Prémio Cidade de Lisboa; e Outrora, agora (1997), que recebeu o Prémio Cidade de Lisboa, o Prémio do PEN Club, o Prémio da Crítica e o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores.
Em 1965, foi preso por, enquanto presidente do júri, ter atribuído o Grande Prémio da Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores ao escritor angolano José Luandino Vieira, então preso no Tarrafal, pela obra Luuanda.
No jornalismo, colaborou com o semanário Mundo Literário (1946-1948), a revista Almanaque (1959-1961), coordenada por José Cardoso Pires, com grafismo de Sebastião Rodrigues e a colaboração de autores como Luís de Sttau Monteiro, Alexandre O'Neill e João Abel Manta, e o Jornal do Caso República (1975), de Raul Rêgo. Trabalhou ainda no Diário Popular, no Jornal de Letras e em O Século, tendo exercido funções como diretor de programas da RTP, entre 1977 e 1978, e dirigido as revistas Seara Nova e Vida Mundial.
Como tradutor, verteu para português obras como O Tambor, de Günter Grass, A Roda da Fortuna, de Roger Vailland, A Promessa, de Gary Kassel, e O Doutor Jivago, de Boris Pasternak. Algumas das suas próprias obras foram também traduzidas para outras línguas, nomeadamente romeno e búlgaro.
Em reconhecimento pelo seu percurso, foi agraciado, a 9 de junho de 1997, com o grau de Comendador da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, pelo Presidente da República Portuguesa.